Já sinto o "bicho" novamente, a vontade de partir nas asas da liberdade, na fragrância do sonhar. Já me perguntei algumas vezes se no partir há também a vontade de fugir. Cheguei à conclusão que há! É inevitável! E creio que existe um pouco em todas as pessoas... esta parte de nós que não aguenta mais o modo como o Mundo flui, como o Homem destrói o que lhe é dado naturalmente e as incoerências da sociedade. A competição, a ganância, a mentira, a inconsciência, a falsidade, o adormecimento, quem é que não quer erguer a voz, porém inerte e inconformado acaba por "fugir" ou arranjar um escape? Não tem a ver com cobardia. Há coragem no ficar e no partir.
Existe luz em qualquer estrada que trilhemos porque esta vem do nosso estado mental, da nossa própria consciência. Porque é que me custa tanto ver o modo como vivemos? Adormecidos! Não te custa ver uma pessoa a desprezar e maltratar a Terra-Mãe, a Natureza? Não te custa ver uma pessoa completamente alienada a ser má para com os outros? Não te custa ver que a ganância, a competição, o poder e o dinheiro sejam os valores de alguém? Não te custa que, no pico onde poderia haver harmonia, respeito e partilha, haja apenas a fobia e o egoísmo de apanhar a próxima e todas as ondas, "proibindo" quem está na água de usufruir plenamente do mar e tudo o que ele nos dá? Porque é que vivemos assim?! Não te questionas a ti próprio de vez em quando?! Não tens vontade de mudar em ti aquilo que poderia ser melhor... de transformar a inveja em alegria e a maldade em bondade e compaixão?!
O Bodyboard, tal como o partir e viajar em busca de ondas perdidas, perfeitas e solitárias é apenas uma forma que temos de expressar essa necessidade de liberdade, de essência, de espontaneidade, do genuíno. É o nosso grito! O nosso modo de nos revoltarmos e agirmos contra tudo aquilo que vemos, não concordamos e nos sentimos impotentes para mudar. E o olhar para dentro e desenvolvermo-nos interiormente, é a forma mais pura e verdadeira que encontramos para expressar a nossa liberdade e irradiar o nosso Amor pelo mundo.
Por vezes, o nosso olhar é tão limitado que não temos consciência das nossas acções, não temos a mínima noção do peso e dimensão do que fazemos, falamos e pensamos. Só o simples facto de trazer mais consciência à nossa vida, muda tanta coisa em nós e ao nosso redor. Porque insistimos em viver embriagados e consequentemente profundamente infelizes (ainda que só nós nos demos conta disso de tempos a tempos)?
O Bodyboard é um desporto que, de certo modo, nos pode tornar pessoas melhores, porque nos ajuda a parar, a relaxar, a descomprimir, a esquecer um pouco este Mundo louco em que vivemos e tão pouco compreendemos; porque sentimos o abraço da Natureza através da água-fonte de origem e vida-; porque no fluir da onda há harmonia, união e comunhão muito para além do Mundo conceptual do pensamento em que constantemente coexistimos. No fundo, queremos gritar, queremos erguer a nossa voz, queremos mudar o rumo cego em que respiramos, mas não sabemos muito bem como nem por onde começar. Então partimos para o mar, para sítios solitários e picos inexplorados, virgens e selvagens e muitos de nós (inconscientes dos danos que estaremos a causar à nossa própria pessoa), para o mundo das drogas e da noite exagerada, do apego excessivo ao corpo e ao mundo da imagem. É um ciclo vicioso e muito difícil de sair, este da sociedade e do Mundo em que vivemos. Não é fácil acordar. Mas, depois, se tivermos em conta que cada passo é no momento e que o despertar é no instante, talvez nessa altura seremos capazes de ceder a onda a quem está ao nosso lado e de mostrar um sorriso àquele que nos agride. Talvez nessa altura, nos descentralizemos um pouco do nosso umbigo e verdadeiramente veremos o que está em nosso redor.
Quando abrimos as portas para o Amor, descobrimos a verdadeira liberdade!!

Como sabem, a vida não é feita apenas de ondas e de um desporto que as aproveita da melhor forma possível chamado Bodyboard. Por isso mesmo, resolvi publicar este texto, que apesar de ter invariavelmente a essência do Bodyboard e das ondas, não se resume apenas a isso, fala-nos de liberdade! Não uma liberdade restringida em "stricto sensu" mas sim uma liberdade alargada e ampla em "lato sensu", onde cada um escolhe para a sua vida o rumo que quer que ela tome. O facto mais essencial é a alegria com que a vivemos, porque sem essa mesma alegria, viveremos como parasitas inertes aguardando por algo que nunca mais vem e que nem sabemos o que será, mas esperamos, porque ainda que parasitas inertes, ansiamos por um pingo de algo que nos dê o tal "suco da vida" e que nos trará alegria e felicidade. Pois é, mas a alegria, assim como a felicidade não nos é dada meus amigos, conquista-se! Não se deixem ficar sentados num sofá ou agarrados ao álcool e às drogas (que por momentos vos trazem uma alegria fingida e uma felicidade puramente enganosa) a ver a a vida passar-vos ao lado, ela é demasiado curta, não a desperdicem. A vida é para ser vivida! Assim se conquista a verdadeira felicidade! Vivam-na com toda a energia que tiverem e serão recompensados.. Amem e sejam amados! Alegrem-se fazendo os outros felizes, emanem felicidade e contribuam para uma melhor vivência desta vida que nos é tão querida..
A foto em cima é de Christopher McCandless, um jovem americano inconformado com a podridão da sociedade em que estava inserido e com a ganância, a falsidade, a corrupção e a inconsciência social das pessoas que o rodeavam. O texto que publiquei fala-nos também desta vertente negativa que infelizmente também abunda no nosso Portugal, e diz-nos que há coragem no ficar e no partir. Chris resolveu partir...
Em 1992 Chris McCandless abandonou um futuro promissor, a civilização e a sua própria identidade, doou os 25 mil dólares que constavam no seu saldo bancário a uma instituição de caridade e partiu em busca de uma experiência genuína que transcendia o materialismo do quotidiano. Na verdade partiu em busca da sua verdadeira felicidade rejeitando tudo o que o tornara num infeliz, mais um parasita inerte da sociedade em que vivia. Assim, rendido ao apelo ancestral e romântico da vastidão selvagem do longínquo Oeste americano, inventa para si mesmo uma nova vida e parte para aquela que se iria revelar a maior aventura da sua vida! Agora pergunto eu, quantos de nós por vezes não sentem a vontade de partir para outro lugar (nem que seja só por uns tempos) ansiando um encontro ocasional com a tal liberdade "lato sensu"? Afinal de contas penso que existe um Christopher McCandless dentro de cada um de nós, um lado selvagem que nos chama constantemente e que só é saciado quando partimos e viajamos, abrindo a nossa alma na descoberta de novos sítios, novas ondas, novos locais, novas paisagens, novas pessoas. É esta a essência da vida! Live and let live!
P.S: "O Lado Selvagem" de Jon Krakauer, um must para todos os viajantes da estrada e da alma!
Bless!

5 comentários:
Tens razão, acho que me vejo nas tuas palavras. Como dizes acho que todos temos esse McCandless dentro de nós, mas às vezes o stress e monotonia do quotidiano torna-nos dormentes e insensíveis a tudo o que nos envolve. Até mesmo em relação a nós próprios e àquilo que queremos alcançar com a nossa existência. Mas para dizer a verdade, neste momento mais que do nunca o meu Christopher McCandless grita desvairado pela liberdade que todos querem conhecer, está incontrolável. E a mim só me apetece ceder facilmente e ir por aí ao sabor do vento, não para fazer bodyboard pelas praias do mundo porque não percebo muito disso, mas simplesmente para conhecer tudo. Tudo tudo tudo. O mundo, as pessoas, as cidades, os jardins, os animais, as praias, as montanhas, as pedras, os lugares maravilhosos que só se vêem nas revistas das agências de viagens e que se seguem sempre de preços disparatados e impossíveis. Para me conhecer a mim mesma. Para conhecer finalmente aquele conceito utópico e desejado da liberdade. Deixar tudo o que já foi e pensar no que ainda está por aí, à espera dos aventureiros da alma e e do sonho. Mas todo este êxtase só de imaginar, desvanece-se sempre que penso nas consequências ou problemas que iria enfrentar. E voltamos outra vez à célebre história do quão curta é a vida, e que devíamos aproveitar ao máximo cada sorriso e carinho e momento e tudo mais. E voltamos também à sociedade que eu tanto adoro e admiro. Este pacífico e respeitável clube de circo que para além dos espectáculos deprimentes, ainda expande os seus ideais fúteis e intolerantes a todo o ser vivo à sua volta. E a verdade é que me queixo tantas vezes mas também só faço o mínimo que posso fazer, mudar o pequeno mundo em que estou. Na verdade se nunca tive muita esperança no ser humano, agora posso dizer que está muito próxima do nulo. Mas a culpa também se centra em cada um de nós que nada faz de revolucionário e radical para elevar esta espécie que continua sempre igual a si própria a um estado superior. O melhor mesmo é fugir do mundo que conhecemos para outros ainda por descobrir. Partir para o desconhecido, nas 'asas da liberdade' que tu falas. E acho que não há nada que exija mais coragem do que partir e deixar todo o teu passado e presente para trás. Um dia quem sabe =) E vou-me calar que acho que já me excedi, mas sabes é que falar mal da sociedade que me rodeia é dos meus hobbies preferidos, foi bem escolhido o tema. Nunca mais comento isto pah, senão faço da página dos comentários o meu blog xD
Como disse uma amiga minha uma vez, antes de partir...
"Parte-me por dentro saber tanta coisa. saber que não fico onde quero. saber que estou onde não faço falta. saber que deixo tanto para trás. saber que estou a crescer e a mudar. saber que o tempo passa mas a saudade fica. saber que a distância, muitas vezes, é uma cabra. saber que sonhos por vezes não passam disso mesmo. saber que mais cedo ou mais tarde vou deixar de cantar na rua. de me deitar no banco do jardim a ver o MAR. saber que vou ter responsabilidades a sério. que o mundo não é uma brincadeira. nem tão bonito como aparece nos filmes. saber que as pessoas nem sempre nos abraçam quando precisamos. saber que muito do que temos por certo é uma ilusão e a vida por vezes é uma autêntica merda. saber que, um dia, vou deixar definitivamente tudo o que conheço e passarei a não conhecer nada. saber que o amor não passa de uma quimera. de uma torre de babel fantasiada que não atinge o céu nunca. saber que não existe um yang para cada yin. saber que a chuva é mais frequente que o sol e que quando pensamos que o dia não pode ficar mais cinzento [surpresa] fica preto. saber que a saudade corrói desorienta e mata-nos mais depressa do que qualquer faca. saber que vou partir muitos pratos até acertar com o armário. saber que um dia acordo, olho para trás e não vejo nada do que imaginei aos 9 anos. saber que os espelhos roubam-nos a alma e a vida. saber que nada mais importa.
mas eu não quero saber nada disto. não por agora. não nos próximos 50 anos. nem na próxima vida. se é assim prefiro viver ignorante... sempre."
BE HAPPY!!! =D
Este Abreu é o maior! continua a brindar-nos com estes textos fantasticos!
Este texto transmite-me uma calma invulgar e enche-me de uma força enorme :)é dificil nao ficar a pensar nele...
Beijinho* continua!
É um grande filme o "Into the wild". Vou levar para a passagem de ano. Também nós vamos largar isto tudo e partir pra Milfontes para sermos uns Alexanders Supertramps!ehe!siga PDA
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